quarta-feira, 22 de abril de 2020

Companhia para aquela que descansa no rio


Uma vez, a muito tempo atrás, um senhor me parou na rua e me perguntou as horas. Como não estava com pressa eu parei e o respondi, ele me agradeceu, mas em vez de seguir o seu caminho, ele ficou parado me olhando. Eu achei estranho, mas eu pensei, talvez ele não me ouviu.

Eu falei as horas de novo, mas ele não se moveu e continuou me olhando.  Isso me deixou um pouco apreensiva, que senhor mais estranho. Eu decidi sair dali, dei um sorriso nervoso para o senhor e comecei andar para frente. Mas o senhor, que até então estava queto, decidiu se mover.

Ele agarrou o meu braço e eu dei um grito de susto. Eu não estava esperando por isso. Eu olhei para o senhor, assustada. 

- Me solta, eu já falei as horas! - Mas em vez de me soltar ele ri. E não sei por quê, mas o sorriso dele me deu calafrios.

- Senhorita, eu acho que te conheço. - o senhor fala para mim, rindo. 

- Mas eu não conheço o senhor. Você deve estar me confundindo com alguém. - Eu tento puxar o meu braço, mas o aperto dele é forte.

- Eu sou velho, mas eu tenho uma boa memória. Eu conheço a senhorita 

- Me solta, se não eu vou gritar - Ele está apertando o meu braço com muita força. Mas em vez de me soltar ele ri e se aproxima.

- Alicia, Eu só quero conversar. A senhorita não precisa gritar. - Eu olho assustada para o senhor. 

- Como você sabe o meu nome? - Ele não me responde, ele só olha para mim, rindo.

- Quem é você? O que você quer de mim? - Mas ele ignora as minhas perguntas e começa a me puxar pelo braço. 


- Vem, Alicia, Eu preciso que você me ajude com algo. - Ele fala enquanto me puxa na direção ao rio. - ... Sabe, Alicia, minha esposa e eu costumávamos morar naquela casa amarela. Ela está bem velha, mas continua em pé. 

O senhor aponta para uma casa desbotada no outro lado do rio.

- Minha esposa gostava de sentar naquela varanda, na frente da casa. Ela ficava sentada lá e assistia o povo passar na rua. - O sorriso do senhor se torna mais caloroso enquanto fala da esposa. - E quando eu não tinha nada melhor para fazer eu ia ficar com ela, lá na varanda. 

- Nossa, que maravilha, Fico feliz por vocês. Vocês devem se amar muito. E eu Adoraria ficar e ouvir mais historias, mas eu tenho algo muito importante para fazer e não posso me atrasar. Que tal o senhor  soltar o meu braço e me deixar ir!? Mais tarde, quando eu terminar com o meu compromisso, eu posso vir aqui e conversar com mais calma com o senhor!? hmm? - Eu falo com a voz tremula.

O senhor me dá um olhar reprovador e me puxa com mais força na direção do rio. 


- Não, eu não posso deixar você ir sem ela ver você primeiro. Ela sempre gostou de você, ela vai ficar feliz em ver como você cresceu.  - O senhor fala enquanto me arrasta para o rio. 

- De quem o senhor está falando? por que você está me levando  para o rio? -  Eu olho ao meu redor por ajuda, mas a rua esta deserta. 

O senhor não volta a falar comigo. Ele me arrasta até o rio com um sorriso no rosto. Quando chegamos na beira do rio, o senhor solta o meu braço. Eu tento correr, mas ele é mais rápido e me segura por trás do pescoço. 


- Oi querida, olha quem veio te ver. - O senhor me empurra para frente e eu caio de cara no rio gelado. -  É a menina Alicia, Você se lembra dela? 


Eu engulo água do rio e quase me afogo. Eu tento nadar de volta para terra firme, mas o senhor não me deixa. Ele me segura pelos braços e não importa o quanto eu lute para me soltar o aperto dele nos meus braços continua firme.

- É querida, Essa é a menina Alicia. Eu encontrei ela no meu caminho para cá. E logo pensei que você gostaria de ver ela. - Eu olho a minha volta, mas não tem ninguém por perto. Esse senhor está conversando sozinho. Ele está louco! Eu tenho que sair daqui.

- Socorro! Socorr- Eu grito desesperada por ajuda, mas no meio da minha gritaria o senhor me empurra para dentro do rio. - Não, por favor.... me ajuda... socorro...

- Calada! Menina você não está vendo que estou conversando com a minha esposa!? hã? O que querida? ha, sim, ela era mais comportada quando era criança. Agora, virou uma jovenzinha sem educação. - O senhor para de me empurrar para de baixo da água. E eu tento recuperar o meu fôlego.



- Por que... por que você está fazendo isso comigo? - Eu pergunto sem forças. O senhor olha para mim e dessa vez ele não sorri. 

- ha menina Alicia, sabe, minha esposa se afogou aqui, nesse rio, no ano passado. Deste o acidente, ninguém veio mais visitar ela. Só eu, eu venho ver ela todo dia, mas as minhas visitas não estão conseguindo acalmar o espirito dela. Ela está muito solitária, a coitadinha não tem nenhum amigo para fazer companhia nessas águas frias. -  O senhor olha triste a nossa volta. E eu não consigo conter os calafrios que tomam o meu corpo.

- Por que você está me falando isso?  - O senhor ri quando ele ouve a minha pergunta.

- A senhorita não lembra, mas quando você era criança você costumava vir brincar na minha casa. Naquele tempo meus sobrinhos  moravam conosco e vocês tinham quase a mesma idade. Minha esposa ficava muito feliz quando você vinha nós visitar, ela gostava muito de você... E eu imagino que ela também vai ficar muito feliz quando você ir fazer companhia para ela.

- Companhia!? não... o que o senhor quer dizer com companhia?

A unica resposta que eu consigo é minha cabeça sento empurrada para de baixo d'água. Eu luto, mas eu não consigo me soltar.

E acabo desmaiando.
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Quando eu volto a consciência eu estou no hospital. Eu consegui sobreviver por um triz. Quando os senhor estava me afogando um grupo de amigos estavam passando e eles foram ao meu socorro. Eu sou tão grata a eles. O senhor foi preso e eu nunca mais passei por perto daquele rio.









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